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Falando o que pensa: Violência não tem ideologia.

Por Edson Júnior Matos dos Anjos.

Professor e Historiador.

Uma publicação em um grupo de WhatsApp formado por colegas de trabalho motivou minha reflexão.

Após a divulgação de dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que mostram que as dez cidades mais violentas do país estão no Nordeste, percebi que os comentários sobre esse tema complexo, tomaram um rumo mais ideológico, meio que indiretamente, atribuindo à esquerda e seus governos, a responsabilidade pelo problema. Como historiador e militante do campo progressista, jamais deixarei de combater o fascismo e qualquer forma de autoritarismo.

Mas justamente por isso considero um equívoco reduzir a violência a uma disputa entre esquerda e direita.

Entendo a violência como resultado de um conjunto de fatores históricos, sociais, econômicos, culturais, geográficos e institucionais.

A verdade é que, o crime organizado, o tráfico internacional de armas e drogas, as desigualdades, a exclusão social, a deficiência educacional e as fragilidades do Estado compõem uma realidade que não cabe em slogans políticos.

A ideia de que a direita seria naturalmente mais competente para enfrentar a criminalidade também não encontra respaldo na experiência brasileira.

Durante a campanha eleitoral do ex presidente Jair Bolsonaro em 2018, o discurso de combate ao crime foi intenso, mas vários especialistas apontam diversas fragilidades e erros cometidas na condução da política de segurança pública.

Houve ampliação do acesso às armas de fogo, enfraquecimento dos mecanismos de rastreamento de armas e munições, esvaziamento do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), ausência de um plano nacional estruturado, redução de investimentos em políticas preventivas, pouco avanço na inteligência policial e no enfrentamento financeiro das facções criminosas, além de críticas ao controle das fronteiras e ao uso político das forças de segurança.

Por outro lado, governos de esquerda também deixaram importantes contribuições para a área.

Nos governos Lula e Dilma foram criadas ou fortalecidas políticas como a Força Nacional de Segurança Pública, a reestruturação e autonomia da Polícia Federal, os presídios federais de segurança máxima, o Pronasci, a Rede Infoseg e o Sinesp, os Centros Integrados de Comando e Controle, a Bolsa-Formação para policiais, além do fortalecimento da legislação por meio do Estatuto do Desarmamento, da Lei Maria da Penha, da Lei do Feminicídio e da Lei de Combate às Organizações Criminosas.

Somam-se a isso políticas sociais e econômicas que, ao ampliar oportunidades e reduzir desigualdades, também influenciam os indicadores de violência.

Isso não significa que governos de esquerda tenham resolvido o problema da segurança pública. Não resolveram.

Mas desmonta a narrativa de que apenas a direita prioriza essa agenda ou possui compromisso com o combate ao crime.

Da mesma forma, o fato de muitas das cidades mais violentas do país serem administradas por prefeitos de direita ou extrema direita – inclusive algumas das 10 listadas na referida publicação de whatsapp – não autoriza concluir que a violência seja consequência dessa orientação política.

Seria o mesmo erro que responsabilizar exclusivamente a esquerda pelos altos índices registrados em estados governados por partidos progressistas.

Como educador, acredito que nosso compromisso é formar cidadãos capazes de compreender a complexidade dos problemas brasileiros, e não reproduzir explicações simplistas.

A segurança pública não será construída apenas pelos governos, mas pelo esforço conjunto do Estado, das escolas, das famílias, das universidades, das instituições religiosas, da imprensa e da sociedade civil.

Ideologizar a violência é um erro que pode custar caro a todos nós, sejam conservadores ou progressistas.

Ela exige políticas públicas baseadas em evidências, inteligência, prevenção, valorização das forças de segurança, fortalecimento da investigação e compromisso coletivo.

Afinal, a violência não pergunta em quem votamos antes de atingir nossas famílias. Enfrentá-la, portanto, deve ser um compromisso permanente de toda a sociedade, acima das diferenças ideológicas e dos interesses eleitorais.

Professor Edson Júnior

Várzea Nova

Ba-30 de Julho de 2026

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